quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Sobre crocodilos e avestruzes


       

          Em uma das nossas aulas presenciais refletimos sobre a metáfora dos castelos e crocodilos. Nesta comparação os castelos são nossa zona de conforto e os crocodilos aquilo que nos separa do que achamos que pode nos atrapalhar ou ameaçar.
          Na época medieval os nobres viviam em castelos, rodeados por muralhas. O acesso ao castelo se dava pelos grandes portões, que quando abertos também serviam de pontes. As muralhas eram rodeadas por fosso de água, onde viviam crocodilos. Sendo estes animais fortes e violentos, criavam uma barreira entre o mundo exterior, o povo comum, e os que habitavam o interior dos castelos.
        Na vivência escolar podemos considerar a escola como o castelo e os seus habitantes os educadores e educandos. Nós educadores temos nossa bagagem de vivências e preconceitos adquiridos ao longo da vida. Muitas vezes eles afloram quando nos pegamos pensando sobre novos alunos portadores de deficiência: temos uma turma lotada, alguns alunos hiperativos que inviabilizam praticamente todo meu planejamento de aula. Sou então informada de que receberei um novo aluno portador de uma deficiente física delimitante, um PC por exemplo. A primeira reação pode ser de resistência. Não sei lidar com este tipo de deficiência, como vou trabalhar com ele, como terei tempo de dar-lhe atenção se minha turma já é enorme, se der mais atenção ao novo aluno quem atenderá o restante da turma? As indagações são inúmeras. A maioria destes questionamentos levantados são reais, pertinentes. Porém, acontece de o educador “sair correndo sem saber do que”. Eu já passei por isso e na prática foi muito mais possível do que sequer imaginei. Conclui que meus medos eram frutos de informações tendenciosas e do meu desconhecimento.
       Há também a metáfora do avestruz, que seria o acionamento de mecanismos de defesa diante da diferença significativa. Para Bleger (1977), mecanismos de defesa são técnicas ou estratégias com que a personalidade opera para manter o equilíbrio...eliminando fontes de insegurança, perigo, tensão ou ansiedade, quando por alguma razão não está sendo possível lidar com a realidade. Havendo a necessidade de fugir de uma questão podemos assumir a postura de avestruz e enfiar a cabeça na areia para não ver o que não quero. É o acionamento da negação, que pode apresentar-se de três formas: compensação, simulação e atenuação. O que eu mais presenciei até hoje foi a atenuação. Não raro ouvimos as sentenças: não caminha mas não precisou amputar, tá doente mas tá vivo, dentre outras. Enfiar a cabeça na areia não facilita a vida do deficiente nem atenua sua situação.
        Tanto crocodilos quanto avestruzes são esteriótipos que não resolvem, não ajudam nenhum dos envolvidos. Fizemos uma atividade prática em dupla, onde deveríamos expressar para uma colega quais os nossos próprios crocodilos e em que situações nós enfiávamos a cabeça na areia como os avestruzes. Foi interessante para pensar nisso e expressá-los publicamente. Ao me perguntar sobre como devo contribuir para a sua inclusão das pessoas deficientes, incapazes ou em desvantagem, concluo que é deixando de lado minhas concepções antigas e me abrindo para as possibilidades. Como educadora propiciar aos meus alunos oportunidades, várias e de qualidade!



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