terça-feira, 29 de maio de 2018

Revisitando estudos


          Na interdisciplina Seminário Integrador VII revisitamos alguns conceitos que estudamos no decorrer do curso. Trago aqui quatro deles, a saber: Escolas democráticas, Construtivismo na ação pedagógica, Empirismo na ação pedagógica e Maquinaria escolar.

As escolas democráticas estão inseridas dentro de uma linha chamada de Pedagogia Libertária que se caracteriza por abordar a questão pedagógica diante de uma perspectiva baseada na liberdade e igualdade, eliminando as relações autoritárias presentes no modelo educacional tradicional. Uma escola democrática é uma escola que se baseia em princípios democráticos, em especial na democracia participativa, dando direitos de participação iguais para estudantes, professores e funcionários. Esses ambientes de ensino colocam os alunos como os atores centrais do processo educacional, ao engajar estudantes em cada aspecto das operações da escola, incluindo aprendizagem, ensino e liderança. Os adultos participam do processo educacional facilitando as atividades de acordo com os interesses dos estudantes.
Outro aspecto importante de uma escola democrática é dar aos estudantes a possibilidade de escolher o que querem fazer com seu tempo. Em muitas escolas, não existe a obrigatoriedade de frequentar as aulas. Os estudantes são livres para escolher as atividades que desejam ou que acham que devem fazer. Dessa forma aprendem a ter iniciativa. Eles também ganham a vantagem do aumento na velocidade e no aproveitamento do aprendizado, como acontece quando alguém está praticando uma atividade que é do seu interesse. Os estudantes dessas escolas são responsáveis por e têm o poder de dirigir seus estudos desde muito novos.


          O construtivismo propõe que o aluno participe ativamente do próprio aprendizado, mediante a experimentação, a pesquisa em grupo, o estímulo a dúvida e o desenvolvimento do raciocínio, entre outros procedimentos. A partir de sua ação, vai estabelecendo as propriedades dos objetos e construindo as características do mundo.
O método construtivista enfatiza a importância do erro não como um tropeço, mas como um trampolim na rota da aprendizagem. A teoria condena a rigidez nos procedimentos de ensino, as avaliações padronizadas e a utilização de material didático demasiadamente estranho ao universo pessoal do aluno. As disciplinas estão voltadas para a reflexão e autoavaliação, portanto a escola não é considerada rígida. Existem várias escolas utilizando este método. Mais do que uma linha pedagógica, o construtivismo é uma teoria psicológica que busca explicar como se modificam as estratégias de conhecimento do individuo no decorrer de sua vida.

          O empirismo é uma teoria filosófica que defende o conhecimento da razão, da verdade e das ideias racionais através da experiência. Os defensores do empirismo afirmam antes da experiência nossa razão é como uma “folha em branco”, onde nada foi gravado. As ideias, trazidas pela experiência, isto é, pela sensação, pela percepção e pelo hábito, são levadas à memória e, de lá, a razão as apanha para formar os pensamentos. A experiência escreve e grava em nosso espírito as ideias e a razão irá associá-las, combiná-las ou separá-las, formando todos os nossos pensamentos.

          Estudar o texto Maquinaria Escolar levou-me a pensar em como e com que objetivo surgiram as escolas e a educação no Brasil. Foi pensado e posto em prática um ensino que viesse conservar o interesse da classe dominante da época. Adotaram-se práticas educativas que buscavam regular a vida e os costumes a fim de dirigir a formação dos jovens nobres (preparando-os para mandar) e moldar as atitudes dos jovens pobres. Até hoje vemos reflexos dos fatos explicitados neste texto: que a educação continua sendo desigual, os recursos continuam insuficientes, mas que os educadores, como sempre, seguem fazendo o melhor que podem, na busca de uma educação de qualidade!

Uma escola pública popular não é apenas a que garante acesso a todos, mas também aquela de cuja construção todos podem participar, aquela que realmente corresponde aos interesses populares, que são os interesses da maioria; é portanto, uma escola com uma nova qualidade, baseada no empenho, numa postura de solidariedade, formando a consciência social e democrática (FREIRE, 1999, p.10).


Em meados do século XVI, a igreja, que tinha poderes políticos e privilégios, na busca de conservá-los começa a dar atenção às infâncias, que abarcam desde a infância angélica e nobilíssima do príncipe, passando pela infância de qualidade dos filhos dos nobres, até a infância rude das classes populares.
Os filhos dos pobres serão por sua vez objeto de “paternal proteção” exercida através de instituições de caridade e beneficentes, onde serão recolhidos e doutrinados. A infância pobre não receberá tantas atenções como os mais abastados, sendo os hospitais, hospícios e outros espaços de correção os primeiros destinos a modelá-los.
Além de adestrar os meninos pobres num ofício mecânico, aos que forem para as letras se lhes dará duas horas logo pela manhã, para aprender a ler, escrever e contar. A instrução fica relegada à seleta minoria.
O professor não possui tanto um saber, mas técnicas de domesticação, métodos para condicionar e manter a ordem; não transmite tanto conhecimento, mas uma moral.
O colégio converte-se num lugar no qual se ensina e se aprende um amontoado de banalidades desconectadas da prática. Essa fissura com a vida real favorecerá formalismos que valorizam as classes distinguidas. O saber é proprietário do professor. Só ele realiza a interpretação correta dos autores, adéqua conhecimentos e capacidades e decide quem é bom aluno. A memória dos povos, os saberes adquiridos no trabalho, suas produções culturais, ficarão marcadas como erros. É uma relação social de caráter desigual, marcada pelo poder e avalizada pelo estatuto de verdade conferido aos novos saberes.
A escola fará a sua concepção platônica dos dons e das aptidões: se o menino fracassa é porque é incapaz de assimilar esses conhecimento e hábitos tão distantes dos de seu redor, portanto a culpa é só sua, e o professor não deixará de lembrá-lo, o que às vezes significa enviá-lo a uma escola especial para deficientes. Em todo caso a maquinaria escolar irá produzindo seus efeitos, transformando esta força, essa tábula rasa, em um bom trabalhador. Em princípios do século XX uma série de medidas destinadas ao controle das classes populares começa a se aplicar, como a casa própria para pobres e ensinar a fazer poupança. Esses dispositivos tem por finalidade tutelar ao operário, moralizá-lo, convertê-lo em honrado produtor, neutralizar e impedir que a luta social transborde, pondo em perigo a estabilidade política. A educação do menino trabalhador não tem pois como objetivo principal ensiná-lo a mandar, se não a obedecer; não pretende fazer dele um homem instruído e culto, se não inculcar-lhe a virtude da obediência e a submissão à autoridade legítima.




Referências:
BECKER, Fernando. Modelos pedagógicos e modelos epistemológicos. Educação e Realidade, Porto Alegre, p.89-96, 01 jun. 1994. Semestral. 19(1).

FREIRE, P. Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro, 1999.

MACEDO, Lino de. O Construtivismo e sua função educacional. Educação e Realidade, Porto Alegre, p.25-31, 01 jun. 1993. 18(1).

TOSTO, Rosanei. Escolas Democráticas Utopias ou Realidade. Revista Pandora Brasil, ISSN 2175-3318. v. 4. 2011.

VARELA, Julia et al. A Maquinaria Escolar. Teoria & Educação, São Paulo, n. 6, p.68-96, 1992