MAQUINARIA ESCOLAR
A segunda postagem que eu vou
revisitar é sobre os Encantos e (des)encantos da educação, que publiquei em
2015/2: (Des)encantos
da educação .
Esta
publicação trouxe as diferenças entre o estudo oferecido aos ricos e aos pobres
desde sempre. Para entender melhor, faço aqui uma revisão do que era a infância
há alguns séculos atrás.
A invenção ou regulação da
categoria aluno está relacionada à descoberta da infância. A criança, tal como
a percebemos hoje, não é eterna nem natural (Àriés, 1981, p.50).
O trabalho do historiador e
escritor Phillipe Ariès apresenta a história social da família e da criança.
Suas pesquisas apontam para o fato de que até por volta do século XII, não
havia lugar, na arte ocidental, para a infância. No século seguinte, a arte exibia,
de forma tímida ainda, o que se pensava das crianças, como homens de tamanho
reduzido. Haviam quadros com representações de anjos pequenos nus e a criança
modelo de todas as demais era o menino Jesus. Durante o século XIV e XV esses
tipos medievais evoluíram e no século XVI desprende-se da iconografia religiosa
e passa a ser representada na arte leiga, mostrando crianças ainda não
sozinhas, sempre acompanhada ou entre vários adultos.
As causas para essa ausência
da figura infantil remonta ao período histórico em que se vivia. As condições
demográficas indicavam altas taxas de natalidade e de mortalidade na Europa neste
período. Áriès complementa:
“Ninguém pensava em conservar o retrato de uma
criança que tivesse sobrevivido e se tornado adulta ou que tivesse morrido
pequena. No primeiro caso a infância era apenas uma fase sem importância, que
não fazia sentido fixar lembrança. O sentimento de que se faziam várias
crianças para conservar apenas algumas era, e durante muito tempo permaneceu,
muito forte” (Áriès, 1981, p.56)
Parece que a infância só
passa a adquirir importância comparada à da vida adulta no século XVII. Os retratos
de crianças sozinhas ou no centro da família se tornaram comuns nesse período. No
século seguinte temos informação das primeiras delimitações da fase da
juventude. O termo juventude faz referência a uma primeira infância e
adolescência. No século XIX então o bebê aparece como uma nova figura também.
No artigo Maquinaria Escolar
Álvares e Varela observam que o fato de Áriès ter relegado a análise da
infância pobre limitou o seu trabalho, o impedindo de perceber que:
“A infância rica vai ser certamente governada,
mas sua submissão à autoridade pedagógica a aos regulamentos constitui um passo
para assumir melhor, mais tarde, funções de governo. A infância pobre, pelo
contrário, não receberá tantas atenções, sendo os hospitais, os hospícios e
outros espaços de correção os primeiros centros-pilotos destinados a modelá-las”
(VARELA e URIA, 1992, p. 75)
A concepção de infância foi
mudando ao longo do tempo e muitas conquistas foram alcançadas. Contudo ainda,
na prática, existe diferenciação entre ricos e pobres. As profissões que
remuneram melhor, como os médicos por exemplo, têm o mais alto custo do curso
de graduação. Assim, quem consegue cursar um curso de medicina é o aluno que
tem condições de pagar pelo curso, estando em melhor condição financeira e
perpetuando assim sua condição. Este é só um exemplo, dentre muitos casos
existentes. É o (des)encanto da educação, sobre o qual falei na publicação de
novembro de 2015, citada acima!
Referências:
ARIÈS,
Philippe. História Social da Criança e da Família. 2 ed. Rio de Janeiro: LTC,
1981.
VARELA,
Julia., ALVAREZ-URIA, Fernando. A Maquinaria escolar. Teoria & Educação.
São Paulo, n. 6, p.68-96, 1992.

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