Sobre crocodilos e avestruzes
Em uma das nossas aulas presenciais refletimos sobre a metáfora dos castelos e
crocodilos. Nesta comparação os castelos são nossa
zona de conforto e os crocodilos aquilo que nos separa do que achamos
que pode nos atrapalhar ou ameaçar.
Na
época medieval os nobres viviam em castelos, rodeados por muralhas.
O acesso ao castelo se dava pelos grandes portões, que quando
abertos também serviam de pontes. As muralhas eram rodeadas por
fosso de água, onde viviam crocodilos. Sendo estes animais fortes e
violentos, criavam uma barreira entre o mundo exterior, o povo comum,
e os que habitavam o interior dos castelos.
Na
vivência escolar podemos
considerar a escola como o castelo e os seus habitantes os educadores
e educandos. Nós
educadores temos nossa bagagem de vivências e preconceitos
adquiridos
ao longo da vida.
Muitas vezes eles afloram quando nos pegamos pensando sobre novos
alunos portadores de deficiência: temos uma turma lotada, alguns
alunos hiperativos que inviabilizam praticamente todo meu
planejamento de aula. Sou então informada de que receberei um novo
aluno portador de uma deficiente física delimitante, um PC por
exemplo. A primeira reação pode ser de resistência. Não sei lidar
com este tipo de deficiência, como vou trabalhar com ele, como terei
tempo de dar-lhe atenção se minha turma já é enorme, se der mais
atenção ao novo aluno quem atenderá o restante da turma? As
indagações são inúmeras. A maioria destes questionamentos
levantados são reais, pertinentes. Porém, acontece de o educador
“sair correndo sem saber do que”. Eu já passei por isso e na
prática foi muito mais possível do que sequer imaginei. Conclui
que meus medos eram frutos de informações tendenciosas e do meu
desconhecimento.
Há
também a metáfora do avestruz, que seria o acionamento de
mecanismos de defesa diante da diferença significativa. Para Bleger
(1977), mecanismos de defesa são técnicas ou estratégias com que a
personalidade opera para manter o equilíbrio...eliminando fontes de
insegurança, perigo, tensão ou ansiedade, quando por alguma razão
não está sendo possível lidar com a realidade. Havendo a
necessidade de fugir de uma questão podemos assumir a postura de
avestruz e enfiar a cabeça na areia para não ver o que não quero.
É o acionamento da negação, que pode apresentar-se de três
formas: compensação, simulação e atenuação. O que eu mais
presenciei até hoje foi a atenuação. Não raro ouvimos as
sentenças: não caminha mas não precisou amputar, tá doente mas tá
vivo, dentre outras. Enfiar a cabeça na areia não facilita a vida
do deficiente nem atenua sua situação.
Tanto
crocodilos quanto avestruzes são esteriótipos
que não resolvem, não ajudam nenhum dos envolvidos. Fizemos uma
atividade prática em dupla, onde deveríamos expressar para uma
colega quais os nossos próprios crocodilos e em que situações nós
enfiávamos a cabeça na areia como os avestruzes. Foi interessante
para pensar nisso e expressá-los
publicamente. Ao me perguntar sobre como devo contribuir para a sua
inclusão das pessoas deficientes, incapazes ou em desvantagem,
concluo que é deixando de lado minhas concepções antigas e me
abrindo para as possibilidades. Como educadora propiciar aos meus alunos
oportunidades, várias e de qualidade!

