FRAGMENTAÇÃO DO APRENDER
Hilton
Japiassu traz em uma frase*
o que Jurgo Santomé esmiúça e explica com detalhes no texto estudado
esta semana “Globalização e interdisciplinaridade”.
A
fragmentação do conteúdo escolar não surgiu sozinha, do nada.
Esta compartimentalização vem do que aconteceu nas linhas de
produção, na economia do início do século XX.
Com
a finalidade de ter maior produtividade, sem tempo para distrações
e “vagabundagens” dos trabalhadores, adotou-se o sistema
Fordista, com as linhas de montagem. Nas fábricas da Ford a produção
dos automóveis foi fragmentada ao extremo, ao ponto de que cada
operário precisava saber muito pouco e repetir exaustivamente, sem
noção do todo. O funcionário que apertava parafusos não sabia nem
ao menos se aquele era o freio ou um enfeite do carro, tendo em vista
a velocidade em que as peças passavam pelas suas mãos. Sem
conhecimento do todo não tinha como opinar sobre nada na produção
do carro e assim só umas poucas pessoas compreendiam claramente
todos os passos da produção e o que a motivava.
De
igual forma, na educação, ao analisar os currículos, se observava
que os conteúdos relacionavam-se com a obediência e a submissão ao
que já tinha sido posto por poucos, que detinham a autoridade sobre
o que se devia ser ensinado nas escolas. Os conteúdos culturais eram
descontextualizados, distantes do mundo experimental dos alunos.
As
consequências desta desapropriação de conhecimento, tanto de
trabalhadores quanto de estudantes, representam um atentado contra os
direitos de participação nos processos de tomadas de decisões. É
antidemocrático e expõe as pessoas à possibilidade de serem
substituídas a qualquer momento. Sem visão do todo não se tem o
conhecimento para argumentar diante de uma demissão no trabalho ou
reprovação escolar!
No
entanto, conforme coloca Santomé, essas políticas de controle e
degradação do trabalho tiveram que enfrentar obstáculos.
Associações e sindicatos abriram os olhos e reagiram, mesmo com
pressão e coação por parte dos patronais. A globalização, que
foi facilitada também pelo acesso à informação que a tecnologia
traz, obrigou que os processos de produção e comercialização
fossem revisitados e revistos. Neste momento entra o modelo
toyotista, com as implementações do engenheiro chefe da empresa
Toyota, que revolucionou os modelos de gestão e produção a partir
da década de 50. O sistema Toyota nasceu na necessidade particular
do Japão de produzir pequenas quantidades de muitos modelos de
produtos, exatamente o contrário do modelo Ford de produção em
massa de produtos idênticos. Aqui estimula-se a produtividade
mediante recompensas e o envolvimento na tomada de decisões até
certo ponto.
Não
nos enganemos, pois no toyotismo os limites existem, os controles
tornam-se mais disfarçados e continuam na mãos de poucos. Assim
também na educação, os professores têm a falsa sensação de
autonomia, porém suas decisões não passam das dimensões
metodológicas e de organização das instituições escolares, mas
não à análise crítica dos conteúdos e finalidades
do sistema escolar. Assim, alguns fatos nos geram dúvidas sobre um
compromisso sério com as reformas educacionais, como por exemplo a
aprovação de uma lei de financiamento que possa garantir o
desenvolvimento de projetos de estudo e pesquisa. Será que o
discurso de autonomia pode reduzir-se apenas à liberdade de escolha
de estratégias para obter os objetivos impostos por um sistema de
educação que pode estar interessado somente em produzir
trabalhadores que não questionam? Será que a excessiva
compartimentalização dos saberes está a serviço de tirar o foco
do todo, para criar especialistas em quase nada?
É
cruel até o que Japiassu traz, das palavras de Harper:
*
“A especialização sem limites culminou numa fragmentação
crescente do horizonte epistemológico. Chegamos a um ponto que o
especialista se reduz àquele que, à causa de saber cada vez mais
sobre cada vez menos, termina por saber tudo sobre o nada(...).”
Fontes:
HARPER,
Babette et al.
Cuidado,
Escola!
São Paulo: Brasiliense, 1980
JAPIASSU,
Hilton. A questão da interdisciplinaridade. Revista
Paixão de Aprender.
Secretaria Municipal de Educação, novembro, n°8, p. 48-55, 1994.
SANTOMÉ,
Jurgo T. GLOBALIZAÇÃO E INTERDISCIPLINARIDADE. O currículo
integrado. Porto Alegre, 1988.
