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quinta-feira, 21 de junho de 2018


Teoria X Prática



Recentemente entrevistei uma professora de EJA e suas constatações vêm ao encontro do que a teoria prevê na legislação brasileira.

Formação inicial Magistério
Possui pós-graduação? Sim
Anos lecionando na EJA 3 anos
Possui formação específica para trabalhar com a EJA? Sim, Pedagogia com habilitação em séries iniciais e EJA

Professora Maria, gostaria que você me contasse sobre sua experiência como docente nas aulas voltadas para a alfabetização de pessoas jovens e adultas. Quais as suas principais recordações / apreciações / aprendizados nesse processo?
Foi um período em que eu aprendi muito com meus educandos por serem adultos, trabalhadores, donas de casa, que possuíam ampla experiência de vida. Pessoas oriundas de um assentamento onde não havia nenhuma infraestrutura, baixa autoestima.
A escola contou como um salto na vida deles, levavam muito a sério. Recordo muito da organização deles na turma. Faziam reuniões para discutir os problemas da escola, da comunidade e nessa época tinha o orçamento participativo. Nós íamos nas assembleias levando as demandas que eles tiravam da comunidade. Todos nós aprendemos muito, especialmente as questões de direito e cidadania.

Como era o ensino nos anos em que frequentaste a escola durante a sua infância adolescência?
O ensino era bem tradicional, com ênfase no aprendizado de sílabas (famílias).

Existe alguma diferença entre ensinar crianças e ensinar jovens e adultos? Quais seriam?
Existem sim diferenças, as aulas precisam ser bem dinâmicas, com movimento e criatividade, levando-se em conta o cotidiano do adulto.

O que acredita ter aprendido como professor e como pessoa com o trabalho na Educação de Jovens e Adultos?
Aprendi a conviver e aceitar de forma mais humilde minha formação acadêmica, sabendo que os alunos sem a mesma, com o conhecimento empírico, também sabem muito.

É primordial partir dos conceitos decorrentes de suas vivências, suas interações sociais e sua experiência pessoal. Como detêm conhecimentos amplos e diversificados, podem enriquecer a abordagem escolar, formulando questionamentos, confrontando possibilidades, propondo alternativas a serem consideradas (BRASIL, 2002, p. 15).
Ministério da Educação e Cultura. Secretaria de Educação Fundamental. Educação de Jovens e Adultos. Proposta curricular para o 2º segmento da Educação para jovens e adultos. Brasília: Ação Educativa/MEC, 2002. 

quarta-feira, 30 de maio de 2018

EJA





        Trago aqui uma reflexão sobre quem é o aluno da Educação de Jovens de Adultos. O sujeito da EJA é o aluno não criança, em grande parte um trabalhador que está buscando concluir seus estudos a fim de conseguir um emprego melhor, um repetente, pertence à classe econômica mais baixa, que enfrenta o cansaço de muitas vezes trabalhar o dia todo e estudar à noite.
      Os jovens e adultos não chegam na escola sem nenhum conhecimento. Eles reconhecem alguma coisa, como sua assinatura, marcas de produtos bem conhecidos e as letras e números, por exemplo. Também têm sua bagagem cultural, seu conhecimento de vida. Mas isto não é o suficiente e em busca da realização de ler este adulto vai em busca da escola, do EJA.
Emilia Ferrero, como Paulo Freire, tem o homem como sujeito construtor do seu conhecimento.
Em função dos dados obtidos com crianças, Emília Ferreiro interessou-se por investigar como os adultos não escolarizados concebiam a escrita. Partia do princípio de que se a compreensão do código escrito precede a entrada na escola, os adultos não escolarizados teriam também, como as crianças, algumas concepções sobre a escrita. E que a ser verdade, poderíamos operar modificações nas propostas metodológicas: esta investigação foi guiada também por uma inquietação pedagógica: não será possível considerar uma ação alfabetizadora que tome como ponto de partida o que estes adultos sabem, em lugar de partir do que ignoram? Não será acaso nossa própria ignorância sobre o sistema de conceitos destes adultos o que nos leva a tratá-los como se fossem ignorantes? O respeito à pessoa analfabeta não deixa de ser um enunciado vazio quando não sabemos o que é que se deve respeitar? Os resultados da investigação permitiram concluir que a aquisição da escrita é uma aquisição conceitual para crianças e adultos, construída pelo sujeito nas relações com o meio, do mesmo modo que se observa em outras áreas do conhecimento. (HARA, p.4)

        Além do benefício prático que o ler traz há a valorização humana que esta conquista traz. É emocionante ver que a relação com o mundo muda a partir do momento em que se consegue ler. Especialmente as pessoas de mais idade sentem uma libertação quando se vêem lendo. Identificar o nome de uma rua, o nome de um remédio, as placas no trânsito, trazem ao adulto segurança. É libertador! Uma das senhoras relatou que a partir do momento que conseguiu ler começou a perceber o mundo de forma diferente. Passou a entender os programas de TV, o que não acontecia antes de ler. Essa realização aumenta auto-estima e isto fortalece as pessoas, faz com que se sintam mais preparadas pra enfrentar o mundo.


REFERÊNCIAS:
HARA, Regina. Alfabetização de adultos: ainda um desafio. 3ª edição. São Paulo: CEDI, 1992.